Diário do Roberto na pandemia- DIA 2

Atualizado: Mai 5

Roberto abriu a janela do apartamento para o sol da manhã entrar na sala e viu uma mulher numa bicicleta. Ela usava máscara. Na garupa estava a filha, com uma máscara rosa. A menina deveria ter uns 7 anos.


Pararam na sinaleira, e, de dentro da mochila, a mulher tirou uns figurinos e as duas se vestiram de bailarina.


Depois, a menina ficou ao lado da bicicleta vendo a mãe fazendo malabarismos com bolinhas no meio da rua para os poucos carros que paravam quando o sinal fechava.


Era um tipo de malabarismo misturado com movimentos de ballet. A menina estava feliz. A mãe não tirava o olho da filha.


Roberto percebeu o desprezo de um único motorista que parou no sinal vermelho.

O carro cinza não abriu a janela.


O malabarismo da mãe era incrível e servia também para distrair a filha.


Pensou nestes artistas que persistem em suas artes. Será que a moça da bicicleta havia pedido o auxílio emergencial do governo federal para pessoas que estavam desempregadas pela pandemia que atingiu, em 4 meses, o planeta inteiro?


O olhar de orgulho da filha pela mãe era contagiante.


O sinal ficou verde, quando o celular de Roberto vibrou, tirando sua atenção.


Era uma mensagem da namorada. Melhor, agora, ex.


- Esqueci minha identidade. Está no banheiro dentro do meu livro do Schopenhauer. Deixa com o porteiro. Obrigada e aproveita o dia.


Roberto correu até o banheiro e viu o rolo de papel higiênico. Ao lado, estava o livro do Schopenhauer. Na página em que a identidade dela estava, havia uma frase sublinhada.

“O Amor é uma tática da Natureza para nos levar a ter filhos”.


O amor é uma questão biológica?


O amor é instinto de vida, de sobrevivência?


Roberto pegou sua máscara, o livro com a identidade da ex-namorada e colocou seu AllStar amarelo.


Saiu de casa.


No elevador, entrou a vizinha que ele já havia apelidado de Clarice Lispector.


Deu bom dia e ela respondeu com um lento piscar de olhos. Usava um lenço verde escuro como máscara, e pela primeira vez ele percebeu que ela tinha olhos azuis escuros.


Ao passar pela portaria, deixou o livro para o porteiro e foi direto para o mercado.


Na rua, viu as poucas pessoas que circulavam. Todas estavam de máscaras.


Ele estava sozinho, solteiro e tranquilo.


Foi quando se sentiu sufocado por uma camada dupla da máscara facial.

Entrou na farmácia.


Quando estava olhando a variedade de remédios coloridos no balcão, só vi uma mão ao seu lado pegando uma aspirina.


As unhas vermelhas, um anel com uma pedra azul.


Voltou a se concentrar na difícil escolha entre um antialérgico, ou uma vitamina C.


Quinze minutos depois, ele estava deitado na sua cama, chupando uma pastilha sabor mel.

Abortou a ida ao mercado.


O mundo era uma entidade independente, que continuaria a funcionar estando ele descornado, apaixonado, infeliz, vivo ou morto.


O mundo não mudaria de acordo com seu estado civil. Então, sentiu indiferença por tudo e dormiu.

E sonhou.


Os anos eram outros.


Dois anos depois de a terra ter sido atingida por uma terrível chuva de meteoros, deixando todos em estado de alerta, as coisas mudaram no planeta.


Algo aconteceu com os sinais das antenas que ficaram potencializadas de radiação, transmitindo ondas fatais para toda a população de abelhas.


Celulares não poderiam ser mais usados, pois a alta potência dos sinais das torres exterminariam, em meses, os insetos do planeta se eles continuassem em uso.


As pessoas sabiam que as abelhas eram importantes para polinizar e vitais para o meio ambiente.

Uma votação mundial foi feita e se decidiu que o mundo continuaria conectado aos sinais radioativos.


Sem as abelhas, o mundo entrou em colapso. Isso porque elas são responsáveis pela polinização de até 90% da população vegetal.


Com a queda da quantidade de vegetais, as fontes de alimentação de animais herbívoros ficaram escassas, gerando um efeito dominó na cadeia alimentar, chegando até o homem.


A agropecuária, em crise, afetou vários setores da economia. Com fome, muitos morreram e ficaram doentes. Na luta pelo pouco alimento que restou, a população mundial iniciou guerras.


Poucos conseguiriam sobreviver a esse caos e as mães que viviam nesse cenário sofreram gestações complicadíssimas pela seleção natural e pela falta dos alimentos.


Os fetos ficaram expostos a essa radiação e começaram a nascer crianças com uma nova formação genética, crianças disformes e ao mesmo tempo superdotadas.


Algumas destas crianças desenvolveram habilidades cerebrais e condições físicas contrárias às das outras gerações.


Nasciam com grave problema nas pernas, e sem pés.


Mães desesperadas conversavam conectadas nessa grande rede mundial de comunicação e trocavam informações sobre como salvar os poucos bebês que resistiam aos partos.


Descobriram que seus filhos se adaptavam muito bem à água, o que se mostrou um cenário propício para esses nenês, que não caminhavam em terra firme.


Além da maleabilidade das novas pernas, que permitia velocidade no nadar, as mães deram-se conta de que seus bebês conseguiam ficar horas em baixo d’agua. O sangue destas crianças era frio, o que reduzia a quantidade necessária de oxigênio.


Então, cada criança nascida com esta síndrome era direcionada ás aguas.


O espaço subaquático se mostrou propício, pois a radiação solar e a das antenas não chegava embaixo da água.


A nova espécie foi chamada de “aquaticus”, e os hospitais já faziam, na primeira semana de vida dos bebês, uma cirurgia de brânquias implantadas.


Em 30 anos, uma geração de novos humanos passou a viver no mar e eles se comunicavam telepaticamente. Empresas tiravam o lixo do mar e jogavam na terra.


Em 50 anos, eram milhares de novos humanos aquáticos, e, logo, a terra passou a não ter mais habitantes, apenas lixo.


O novo homem agora vivia no mar.


E ele, que estava embaixo da água, começou a sufocar.


Um sirene tocava. Estava se afogando. Não, sufocando.


Acordou engasgado com a pastilha de mel.


A campainha da sua casa tocou.


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ficha técnica

Texto e direção geral: Bob Bahlis.

Elenco: Angela Ponsi e Vera Amaral.

Artista convidado: José Henrique Ligabue

Finalização: Lui Felippe

Design gráfico e web design: Angela Ponsi

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