Diário do Roberto na pandemia - Dia 01

Atualizado: Mai 5

Roberto é morador de Porto Alegre e vem nos mandando suas histórias sobre o que vem acontecendo durante a pandemia. Tímido e discreto, pediu para ser identificado apenas pelo primeiro nome, Roberto. Seus textos serão postados nas terças, quintas e sábados. Aproveite a leitura!


Roberto acordou e viu uma máscara e um papel na mesa de cabeceira.


- Roberto, quando você foi me buscar ontem na casa da Cris, eu vi que notou um brilho diferente no meu olho. Nunca ri tanto. A tarde estava ótima. Pra variar, você se atrasou mais uma vez. No carro e em casa, o teu eterno silêncio. Na verdade, aconteceu uma coisa inesperada agora, quando acordei na madrugada. Eu descobri que estou viva e não quero viver com um budista capitalista, sabe? Não me procura mais. Não liga e não manda mensagem. Muito na boa, eu não quero mais.


Roberto leu dezenas de vezes o bilhete e não entendeu nada.


A Cris era uma colega do curso de inglês, que ambos faziam antes do isolamento social.

Se atrasou, pois teve que cobrir um colega no jornal.


- Eu vi que você notou um brilho diferente no meu olho.


Não havia notado nada. Tentou lembrar o que poderia ter falado...


No carro, comentou que achava este momento mundial um porre. Ela riu e disse: “Necessário, Roberto”.


Chegaram em casa e ela deitou, havia misturado vinho com cerveja e disse que precisava dormir.


Budista capitalista? Ela estava tentando lhe ofender.


Tentou ligar para ela, mas o celular estava desligado.


Estavam vivendo uma crise, mas não era motivo para tanto. A vida deles estava um pouco chata, a rotina durante o isolamento social era mais problemática para ela, mas passavam os dias bem.

No bilhete ela mencionou seu eterno silêncio.


Roberto era adepto das boas expressões faciais. Era possível se comunicar em qualquer lugar do planeta, com cinco expressões faciais. Para que a fala? Talvez o que faltasse para ela era um pouco mais de sensibilidade. Se estavam juntos, frente a frente, vivendo no mesmo metro quadrado, respirando o mesmo ar, acreditava que não precisava de muita fala para se comunicar.


Na época das cavernas deveria ser difícil viver sozinho, sobreviver sem o grande grupo. Mas o homem evoluiu desde então, e achar normal estar sempre acompanhado de alguém, também era estranho.


Sobreviveria sem ela, pois experimentou outras vezes aquela situação.


Mas a realidade é que Roberto, naquele instante, se viu sozinho, precisava ver pessoas.

Mas o que fazer? Para onde ir?


E vivemos eternamente em busca da parte que nos falta.


Cresceu na zona norte de Porto Alegre ao lado de um mercado. Talvez por ter sido um grande ladrão de chocolate na infância, seu karma agora era ter apenas o supermercado para dar uma volta.


Foto enviada pelo autor da Cabanha Costa do Serro em Caminhos Rurais/Porto Alegre.

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ficha técnica

Texto e direção geral: Bob Bahlis.

Elenco: Angela Ponsi e Vera Amaral.

Artista convidado: José Henrique Ligabue

Finalização: Lui Felippe

Design gráfico e web design: Angela Ponsi

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