Diário do Roberto na pandemia - dia 3

Atualizado: Mai 5


Roberto foi à portaria do prédio e, antes de chegar no hall, havia um espaço feito pelos moradores antigos. Uma prateleira com dezenas de livros velhos, doados por eles mesmos, um tipo de sebo. Quando passava por ali, deu o primeiro espirro. E lembrou que estava sem máscara.


Resolveu voltar para seu apartamento e pegar a proteção facial necessária, quando resolveu parar ali pela primeira vez e pegar um livro. Ao observar os títulos, sem tocar em nada, viu Clarice Lispector, “A hora da estrela”. Pegou, em homenagem aos lindos olhos azuis da vizinha com lenço verde escuro.


Resolveu subir pelas escadas. No décimo andar, resolveu sentar no degrau gelado. Ofegante, abriu a primeira página. O livro começava assim: “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim à outra molécula e nasceu a vida.”


Sentado naquele degrau quebrado e olhando para a escuridão das nuvens, teve uma lembrança.

Estava sendo arrastado para dentro de um porão.


Lembrou da escuridão do porão, viu seu braço sendo puxado, seus pés, sentiu um cheiro de mofo.

Resolveu olhar para o texto do livro da Clarice Lispector, mas as palavras começaram a se misturar.


Fechou os olhos.


O porão era na casa de uma senhora que cuidava dele nas tardes da sua infância.

O menino que o prendia era o filho mais velho dela.


Estava com menos de 6 anos, pois ainda não frequentava a escola e ainda não sabia nada sobre sexo, mas teve a sensação, de imediato, que ali houve um ato libidinoso, um abuso sexual.

Como entender o que eram aquelas memórias e porque justo naquele dia?


E nisso lembrou de outras vezes, de detalhes assombrosos, até o dia que ameaçou o menino mais velho de contar o que acontecia debaixo da casa, para a mãe dele.

Nunca mais foi arrastado para o porão.


Até que o morador do décimo andar abriu a porta e deu bom dia para Roberto.


- Bom dia.


-Bom dia, é bom ver alguém usando o nosso sebo.


- Muito interessante essa ideia dos livros.


- Foi de uma senhora, moradora do prédio. Na época que tinha bonde em Porto Alegre. Minha falecida esposa.


- Então o senhor foi casado com uma boa pessoa, afinal a leitura abre a mente das pessoas.


- É verdade, houve um tempo que os bondes andavam pela cidade e os livros eram vendidos de maneira absurda. Era outra cidade, mas sabe que esse silêncio das ruas durante esta pandemia me faz recordar daqueles velhos tempos.


- O senhor tem toda razão, tudo tem dois lados.


- Mas tu deveria estar de máscara.


-Sim, quando estava lá embaixo, lembrei e voltei, resolvi subir de escadas e dei uma parada estratégica, mas vou seguir meu caminho quando chegar o seu elevador.


- Então vou te contar uma história. Nos anos 60, eu havia casado fazia 06 meses, e num bonde, uma mulher pediu para eu segurar a sua filha para buscar uma sacola na parte de trás. Eu segurei e fiquei olhando aquele bebê. Quando se passaram poucos minutos, procurei pela mulher, mas ela havia desaparecido. Fui até uma delegacia e o delegado disse que a melhor coisa a fazer era levar a criança para casa. Ele prometeu que passaria o caso para todas as delegacias da cidade, com meu endereço, para o caso de que alguém fosse procurar o bebê. Ninguém deu falta do bebê. Eu e minha mulher adotamos a menina. Dois anos depois, numa madrugada, bateram na porta da nossa casa. Quando fui abrir, havia uma caixa com outro bebê dentro. Outra menina. A mesma situação se repetiu e adotamos a segunda filha. Um ano se passou e minha esposa ficou grávida. Tivemos nossa terceira filha e agora a família tem três meninas. Todas criadas igualmente, com todas as oportunidades que podíamos oferecer. Todos os cursos: alemão, inglês, datilografia. Tudo por causa do bonde. Destino, meu filho. Destino.


O elevador chegou e o senhor foi embora.


A primeira vez que Roberto escutou a palavra destino, tinha treze anos de idade.


Subiu os andares que faltavam e lembrou do seu amigo de infância, Denis.


Crédito da foto: Foto de Gabriela Luisa Pomar, postada no grupo "Fotos antigas do Rio Grande do Sul" do Facebook. https://www.facebook.com/groups/2067776010170453/

39 visualizações

ficha técnica

Texto e direção geral: Bob Bahlis.

Elenco: Angela Ponsi e Vera Amaral.

Artista convidado: José Henrique Ligabue

Finalização: Lui Felippe

Design gráfico e web design: Angela Ponsi

  • Facebook
  • Instagram
  • YouTube

contact us

Mail: bobbahlis@gmail.com

Watsapp: 992186068